A jornada da reprodução assistida é alimentada pelo sonho da parentalidade. Muitas vezes, no consultório, deparo-me com o desejo de casais que idealizam uma gravidez gemelar como a “solução ideal” para completar a família. No entanto, como especialista em medicina reprodutiva, o meu compromisso principal é com a saúde da mãe e a chegada de um bebé saudável ao colo dos pais. É fundamental compreender que, na medicina moderna, o sucesso da Fertilização In Vitro (FIV) é medido por uma gestação única de termo.
A Relação entre a Fertilização In Vitro e a Gemelaridade
Historicamente, as taxas de gravidez gemelar na FIV eram significativamente superiores às da conceção natural. Isto ocorria devido à prática comum de transferir múltiplos embriões para aumentar as hipóteses de sucesso.
Por que razão ocorrem mais gémeos na FIV?
Antigamente, a fragilidade dos métodos de laboratório exigia a transferência de dois, três ou até quatro embriões. Hoje, com a evolução da cultura embrionária até ao estadiamento de blastocisto e os testes genéticos pré-implantacionais (PGT-A), a nossa capacidade de identificar o embrião com maior potencial de implantação evoluiu drasticamente.

Riscos Associados à Gravidez Gemelar
Embora a ideia de dois bebés possa parecer encantadora, do ponto de vista médico, a gravidez gemelar é classificada como uma gestação de alto risco. O corpo humano feminino está biologicamente optimizado para gerar um bebé de cada vez.
Riscos para os Bebés
A gemelaridade impõe desafios ao desenvolvimento fetal que podem ter repercussões para toda a vida.
Prematuridade e Baixo Peso
Mais de 50% das gravidezes gemelares resultam em parto prematuro (antes das 37 semanas). A prematuridade aumenta o risco de dificuldades respiratórias, problemas neurológicos e permanência prolongada na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN).
Síndrome de Transfusão Feto-Fetal (STFF)
Em casos de gémeos monocoriónicos (que partilham a mesma placenta), pode ocorrer um desequilíbrio no fluxo sanguíneo entre os bebés, uma condição grave que exige intervenção intrauterina especializada.
Riscos para a Gestante
A saúde materna é igualmente pressionada numa gestação múltipla.
Pré-eclâmpsia e Hipertensão Gestacional
O risco de desenvolver quadros hipertensivos é três a quatro vezes maior em mulheres grávidas de gémeos, podendo evoluir para situações críticas de segurança materna.
Diabetes Gestacional e Hemorragia Pós-Parto
O excesso de volume uterino e as alterações hormonais exacerbadas aumentam a incidência de resistência à insulina e o risco de atonia uterina após o parto, provocando hemorragias graves.
A Tendência “eSET”: Transferência de Embrião Único Eletiva
Como defensor das melhores práticas em reprodução humana, foco a minha conduta no eSET (elective Single Embryo Transfer).
Priorizar a Segurança sobre a Quantidade
Ao transferir apenas um embrião de excelente qualidade, reduzimos o risco de gemelaridade para quase zero, sem comprometer a taxa de sucesso acumulada (as hipóteses totais após todas as transferências do ciclo). O objetivo final não é apenas o teste de gravidez positivo, mas um parto seguro e um recém-nascido saudável.
Conclusão: Informação é o Primeiro Passo
Decidir o número de embriões a transferir é uma etapa crucial do planeamento da FIV. Deve ser uma decisão partilhada, baseada em evidências clínicas e no histórico de saúde da paciente. Se o seu sonho é a maternidade, procure um especialista que prioritize a sua segurança e o bem-estar do seu futuro filho.




